Os primeiros Capítulos
Alice Mendes, 38 anos, é advogada de família em Lisboa. Organizada, racional e controladora, sempre acreditou que tinha construído a vida perfeita: um casamento estável de catorze anos, uma filha de onze anos chamada Inês e uma rotina previsível que lhe dava segurança. Até ao dia em que descobriu que o homem com quem dormia todas as noites guardava um segredo profundo e perturbador.
Tiago Mendes, 41 anos, é engenheiro informático e trabalha a partir de casa. Calmo, responsável e dedicado, sempre foi visto como o marido ideal — presente, carinhoso e sem grandes dramas. Por trás dessa imagem de estabilidade, esconde há anos um fetiche que nunca teve coragem de revelar: o desejo de ver a sua mulher com outro homem, de ser humilhado e de assistir.
Do lado de fora, Alice e Tiago pareciam o casal que todos invejavam.
Do lado de dentro, viviam uma mentira confortável.
























Acordei antes do despertador, como quase sempre. O quarto ainda estava escuro, mas a luz cinzenta da manhã já entrava pelas frestas das persianas. Ao meu lado, o Tiago dormia de barriga para cima, com um braço por cima da cara, como fazia desde que nos conhecíamos. Respirei fundo e fiquei uns segundos só a ouvir o silêncio da casa. Não havia barulho de trânsito ainda, só o zumbido baixo do frigorífico na cozinha e o som distante de um carro a passar na rua.
Levantei-me devagar, para não o acordar. Pus o roupão por cima do pijama e fui descalça até à cozinha. A Inês ainda dormia. Pus água a ferver, preparei o café do Tiago — forte, sem açúcar — e o meu, com um pouco de leite. Depois abri a janela da cozinha e deixei entrar o ar fresco de outubro. O bairro ainda estava calmo. Era uma daquelas manhãs em que Lisboa parecia uma cidade mais pequena, mais nossa.
Aos poucos, a casa foi acordando. Primeiro ouvi o chuveiro do quarto de banho da Inês. Depois os passos dela pelo corredor, arrastando os chinelos de unicórnio que eu lhe tinha comprado no verão passado. Entrou na cozinha ainda a esfregar os olhos, com o cabelo castanho todo despenteado.
— Bom dia, mãe — murmurou, sentando-se à mesa.
— Bom dia, amor. Dormiste bem?
— Mais ou menos. A Joana da minha turma disse que ia trazer o cão à escola hoje e eu sonhei que mordia alguém.
Sorri e pus-lhe o iogurte e a torrada à frente. A Inês tinha onze anos e ainda falava comigo como se eu fosse a única pessoa no mundo que entendia as coisas importantes. Isso ia mudar em breve, eu sabia. Mas por enquanto ainda era assim.
O Tiago apareceu uns minutos depois, já vestido com a camisola de gola alta que usava para trabalhar em casa. Beijou-me na testa, como fazia todas as manhãs, e sentou-se ao meu lado com o telemóvel na mão.
— Tens reunião hoje? — perguntei, enquanto lhe servia o café.
— Só às onze. Depois estou livre o resto do dia.
— Boa. Assim podes ir buscar a Inês à escola se eu me atrasar.
Ele acenou com a cabeça e continuou a olhar para o ecrã. Era assim que as nossas manhãs eram. Calmas. Previsíveis. Sem grandes surpresas. E eu gostava disso. Tinha gostado durante catorze anos.
Depois de levar a Inês à escola, fui para o escritório. O trânsito estava normal para a altura. Pus a rádio e deixei-me ir no piloto automático. No trabalho, o dia correu como todos os outros. Reuniões, emails, um processo de divórcio complicado que me estava a dar dores de cabeça. À uma e meia almocei sozinha no café da esquina, como fazia quase sempre. Comi uma salada e li as notícias no telemóvel. Nada de especial.
Quando cheguei a casa, pelas seis e meia, o Tiago já tinha feito o jantar. Frango no forno com batata doce. A Inês estava no quarto a fazer os trabalhos de casa. Sentei-me na cozinha enquanto ele terminava de temperar a salada.
— Correu bem o dia? — perguntou, sem tirar os olhos da tábua de cortar.
— Mais ou menos. O caso da Paula continua a dar trabalho. E tu?
— Nada de especial. Resolvi uns problemas de um cliente em França e depois vi um episódio de uma série enquanto esperava.
Era sempre assim. As nossas conversas eram tranquilas, sem arestas. Nunca discutíamos por causa de dinheiro nem por causa de ciúmes. Éramos um daqueles casais que os amigos apontavam como exemplo. “Vocês são tão estáveis”, diziam. E nós éramos. Ou pelo menos eu pensava que éramos.
Depois do jantar, ajudámos a Inês com os trabalhos durante uma hora. Depois ela foi para o quarto ver um desenho animado antes de dormir. Eu e o Tiago ficámos na sala, cada um no seu lado do sofá. Ele com o computador portátil nas pernas, eu com um livro que andava a tentar ler há três semanas. De vez em quando trocávamos duas frases. Nada importante.
Às onze da noite, depois de a Inês estar a dormir, fomos para o quarto. Eu estava cansada, mas não demasiado. Quando ele se deitou ao meu lado e passou a mão pela minha cintura, percebi que queria fazer amor. Não disse nada. Só me virei para ele e deixei que me beijasse.
O sexo foi como quase sempre. Doce, conhecido, sem pressa. Ele sabia exatamente onde me tocar, quanto tempo demorar, quando abrandar. Eu fechei os olhos e deixei-me ir, como fazia há anos. Quando acabou, ele beijou-me no ombro e disse “amo-te”, como dizia quase todas as vezes. Eu respondi o mesmo, com a voz ainda um pouco arquejante.
Depois ficámos deitados no escuro, ele com o braço por cima da minha barriga, eu a olhar para o teto. Pensei na Inês, na escola dela, na reunião que tinha marcada para o dia seguinte, na conta da luz que ainda não tinha pago. Pensei que, apesar de tudo ser um pouco repetitivo, tinha sorte. Tinha um marido que me amava, uma filha saudável, um emprego estável. Não era o casamento apaixonado dos filmes, mas era real. Era nosso.
Antes de adormecer, o Tiago murmurou qualquer coisa que não percebi bem. Acho que disse “boa noite”. Apertei-lhe a mão que estava pousada na minha barriga e fechei os olhos.
Amanhã seria igual. E isso, naquela altura, parecia-me uma coisa boa.

Nos dias seguintes, nada de grave aconteceu. A vida continuou como sempre. Mas havia coisas pequenas. Coisas tão pequenas que, se eu as tivesse contado a alguém, soariam ridículas.
Na terça-feira, por exemplo, cheguei mais cedo do escritório. A Inês ainda estava na escola e o Tiago estava na sala, sentado no sofá com o computador portátil nas pernas. Quando entrei, ele fechou o ecrã depressa demais. Não foi um movimento brusco, nada dramático. Foi só um clique rápido, quase automático, como quem não quer que vejam o que estava a fazer.
— Estás em casa cedo — disse ele, levantando-se para me beijar.
— Tinha uma reunião cancelada. O que estavas a ver?
— Nada de especial. Um relatório chato de um cliente.
Sorri e não insisti. O Tiago trabalhava muitas vezes em casa e eu sabia que alguns relatórios eram mesmo aborrecidos. Ainda assim, fiquei com uma sensação estranha no peito durante uns segundos. Desapareceu logo que pus a pasta no chão e fui à cozinha beber água.
Na quarta-feira foi o telemóvel. Estávamos os três à mesa a jantar — frango grelhado e salada —, quando o telemóvel dele vibrou. Ele olhou para o ecrã, leu a mensagem e virou o aparelho para baixo, com o ecrã contra a mesa. Fez aquilo tão naturalmente que quase não dei por isso. Mas dei.
— Algum problema no trabalho? — perguntei, mais por dizer alguma coisa.
— Não, não. Só o grupo dos antigos da faculdade. Estão a marcar um jantar.
Acenei com a cabeça e continuei a comer. A Inês contou-nos que tinha tido uma discussão com uma colega por causa de um lápis de cor e o Tiago riu-se no sítio certo. Tudo normal. Ainda assim, reparei que ele não voltou a pegar no telemóvel enquanto estávamos à mesa. Costumava deixá-lo ao lado do prato, a consultar de vez em quando. Naquela noite, deixou-o virado para baixo até acabarmos de comer.
Na quinta-feira foi mais evidente.
Tínhamos combinado ver um filme depois de a Inês ir dormir. Eu pus o pijama, arrumei a cozinha e sentei-me no sofá por volta das onze. O Tiago disse que ia só “ver uma coisa rápida no computador” e que depois vinha. Eu esperei. Pus o filme em pausa. Passaram vinte minutos. Depois meia hora. Quando ele finalmente apareceu no quarto, já eram quase as doze e eu estava quase a adormecer.
— Desculpa — murmurou, deitando-se ao meu lado. — Perdi a noção do tempo.
— Estavas a trabalhar?
Ele hesitou uma fração de segundo antes de responder.
— Sim. Um problema que surgiu de repente.
Deitei-me de lado, de costas para ele, e não disse mais nada. Não era mentira. O Tiago trabalhava mesmo muitas horas. Mas havia qualquer coisa na forma como ele disse aquilo — na pequena hesitação, na voz um pouco mais baixa — que me fez ficar acordada mais uns minutos depois de ele ter apagado a luz.
Na sexta-feira à noite aconteceu outra coisa.
Tínhamos acabado de nos deitar. Eu estava cansada, mas não demasiado. Aproximai-me dele, passei a mão pelo peito e beijei-lhe o pescoço. Ele correspondeu no início, mas depois parou. Disse que estava muito cansado e que preferia dormir. Não foi a primeira vez que ele recusava fazer amor. Acontecia de vez em quando, especialmente quando tinha dias stressantes no trabalho. Ainda assim, naquela noite, senti uma pontada de rejeição que não conseguia explicar bem.
— Está tudo bem? — perguntei, já com a luz apagada.
— Está, está. Só estou mesmo cansado.
Passei a mão pelo braço dele e não insisti. Adormeci pouco depois.
No sábado de manhã, enquanto tomávamos o pequeno-almoço, olhei para ele e pensei que talvez estivesse só a imaginar coisas. O Tiago parecia o mesmo de sempre. Calmo, presente, a ajudar a Inês a pôr a mesa. Sorriu-me quando lhe passei o pão. Beijou-me na bochecha antes de ir tomar duche.
Ainda assim, durante o fim de semana, reparei em mais dois pormenores.
No sábado à tarde, enquanto eu estava a arrumar a roupa, ele foi ao quarto e fechou a porta. Ficou lá dentro uns bons dez minutos. Quando saiu, eu estava no corredor. Ele pareceu surpreendido por me ver ali.
— Estavas à procura de alguma coisa? — perguntei.
— Não, não. Só ia buscar um casaco.
No domingo à noite, depois de a Inês ir dormir, ele voltou a ficar mais tempo no computador. Eu estava na sala a ver uma série sozinha. Quando fui à casa de banho, passei pela sala e vi que ele tinha o ecrã minimizado. Quando voltei, já tinha aberto outra coisa — parecia um site de notícias.
Não disse nada. Não fiz perguntas. Não era o tipo de pessoa que revistava o telemóvel do marido nem que fazia cenas por causa de portas fechadas. Confiava nele. Tínhamos catorze anos de casamento e nunca me tinha dado motivo para desconfiar.
Ainda assim, quando me deitei naquela noite, fiquei uns minutos a olhar para o teto no escuro, a pensar naquelas pequenas coisas que se tinham acumulado ao longo da semana. Não eram grandes. Não eram alarmantes. Mas estavam lá.
Pensei em perguntar-lhe diretamente se estava tudo bem. Pensei em dizer que ele parecia mais distraído ultimamente. Mas depois imaginei a conversa e pareceu-me dramática. O Tiago ia dizer que era só trabalho, eu ia acreditar e a vida ia continuar.
Adormeci com essa ideia na cabeça.
Na segunda-feira de manhã, enquanto preparava o lanche da Inês, olhei para o Tiago que estava a beber café ao balcão e pensei: *Está tudo bem. São só coisas pequenas. Toda a gente tem semanas assim.*
E acreditei nisso.
Pelo menos por mais uns dias.

Na quarta-feira seguinte, o meu computador decidiu morrer.
Acordei com ele a fazer um barulho estranho, como se estivesse a tossir. Liguei-o, esperei, e apareceu uma mensagem de erro que eu nunca tinha visto. Tentei reiniciar duas vezes. Nada. Às oito e meia da manhã, já estava a entrar em pânico. Tinha uma reunião importante às dez com um cliente que estava a processar o ex-marido por pensão de alimentos, e todos os documentos estavam guardados no disco do portátil.
O Tiago estava na cozinha a fazer torradas quando eu entrei, ainda de roupão, com o cabelo molhado e o telemóvel na mão.
— O meu computador morreu — disse, tentando manter a voz calma. — Preciso de usar o teu para aceder aos documentos da reunião.
Ele parou com a faca no ar por um segundo. Depois acenou com a cabeça.
— Claro. Está na sala. A palavra-passe é a mesma de sempre.
— Obrigada.
Não notei nada de estranho na altura. Só mais tarde é que me lembrei daquela pequena hesitação.
Levei o portátil dele para a mesa da sala de jantar e liguei-o. Enquanto esperava arrancar, mandei uma mensagem à Inês a dizer que a ia buscar mais tarde à escola. Depois abri o navegador e entrei no meu email de trabalho. Consegui descarregar os documentos de que precisava. Respirei aliviada.
Estava prestes a fechar o computador quando me lembrei que o Tiago tinha um documento antigo de um processo em que me tinha ajudado há uns meses — um modelo de contrato que eu precisava de consultar rapidamente. Disse-lhe que ia procurar na pasta de documentos dele.
Abri o Explorador de Ficheiros.
Vi as pastas habituais: Documentos, Transferências, Imagens, Trabalho. Cliquei em Trabalho. Havia várias subpastas organizadas por ano. Escolhi a de 2024 e procurei o nome do ficheiro que me lembrava. Não estava lá.
Abri outra pasta chamada “Antigos”. Também não.
Comecei a ficar impaciente. Abri uma pasta chamada “Backup 2023”. Nada de relevante.
Foi quando vi uma pasta mais abaixo, quase no fim da lista. Tinha um nome estranho: **“Trabalho Pessoal – Não Apagar”**. Não me lembrava de o Tiago alguma vez ter mencionado uma pasta com esse nome. Cliquei nela sem pensar muito.
Dentro havia apenas três coisas: duas pastas e um ficheiro de texto.
A primeira pasta chamava-se **“Vídeos”**. A segunda chamava-se **“Histórias”**.
Abri primeiro a de “Histórias”. Havia dezenas de ficheiros com nomes como:
- *Esposa com o amigo do marido – relato real* - *Queria ver a minha mulher com outro* - *Cuckold – primeira vez que ela saiu sozinha* - *Quero que ela me humilhe* - *A minha esposa goza com outro e eu limpo*
Senti um frio na barriga. Cliquei num deles por curiosidade. Era um texto longo, escrito em português. Li as primeiras linhas:
> “Há dois anos que sonho com isto. Quero ver a minha esposa a ser fodida por um homem mais novo, mais forte, enquanto eu fico sentado na cadeira do canto a observar. Quero que ela goze com ele de uma forma que nunca gozou comigo. Quero que depois ela me olhe nos olhos e me diga que o pau dele é muito melhor que o meu.”
Fechei o ficheiro depressa, como se tivesse queimado os dedos. O coração estava a bater-me descontrolado.
Abri outro. Este era mais curto:
> “Ela voltou para casa com o cheiro dele na pele. Eu ajoelhei-me e chupei-lhe a cona enquanto ela me contava como ele a tinha fodido. Depois ela sentou-se na minha cara e fez-me engolir tudo o que ele tinha deixado lá dentro. Foi a coisa mais excitante que já me aconteceu.”
Fechei também este. As mãos começaram a tremer.
Abri a pasta dos “Vídeos”.
Havia mais de cinquenta ficheiros. Os nomes eram ainda mais diretos:
- *Wife takes BBC while husband watches* - *Cuckold compilation 2024* - *Hotwife first time with bull – husband humiliated* - *Portuguese couple – wife fucks friend in front of husband* - *Small dick husband cleans up creampie*
Cliquei num vídeo quase sem pensar. O ecrã ficou preto durante dois segundos e depois apareceu uma mulher de uns trinta e poucos anos, loira, de joelhos na cama. Estava a chupar um homem negro, alto e musculado, que lhe segurava a cabeça com as duas mãos. Ao lado da cama, sentado numa cadeira, estava um homem mais velho, magro, com óculos. Estava completamente nu e masturbava-se devagar enquanto olhava. De vez em quando dizia frases baixas:
— Isso, amor… chupa bem o pau dele… mostra-me como gostas mais dele do que de mim…
A mulher tirou o pau da boca, olhou para o marido e sorriu de forma provocadora.
— O pau dele é muito maior que o teu — disse ela, com a voz rouca. — Queres ver ele a foder-me?
O homem da cadeira gemeu e assentiu com a cabeça.
Fechei o vídeo com o dedo a tremer no touchpad.
Abri outro. Este era mais curto. Uma mulher de cabelo escuro, parecida comigo na idade, estava de quatro na cama. Um homem mais novo penetrava-a por trás com força, enquanto o marido estava ajoelhado ao lado da cama, completamente vestido, a olhar. A mulher gemia alto. De vez em quando virava a cara para o marido e dizia:
— Olha como ele me fode… olha como eu gozo com ele… tu nunca me fizeste gozar assim…
O marido respondia baixinho:
— Sim, amor… usa-me… humilha-me…
Fechei também este. Senti o estômago revirar-se.
Abri mais um vídeo, já quase sem conseguir respirar direito. Era uma compilação. Várias cenas rápidas: mulheres a serem fodidas enquanto os maridos observavam, alguns a chorar, outros a masturbar-se, alguns a limpar com a boca depois. Em quase todas as cenas havia frases de humilhação. “O teu pau é pequeno”, “Ele fode-me melhor”, “Tu és só o meu marido, ele é quem me dá prazer”.
Fechei o computador com força.
Fiquei sentada à mesa da sala de jantar, a olhar para o portátil fechado. As mãos estavam geladas. Senti um gosto amargo na boca e uma sensação de náusea que subia pela garganta.
Não conseguia processar o que tinha acabado de ver.
Aquelas mulheres… aquelas frases… aquele homem na cadeira a olhar enquanto a mulher dele gozava com outro… E o Tiago tinha guardado tudo aquilo. Organizado. Com títulos. Com histórias escritas em português.
Ouvi o barulho da chave na porta da entrada.
O Tiago tinha voltado mais cedo do que eu esperava.
Entrei em pânico por dois segundos. Levantei-me depressa, peguei no portátil e levei-o para a secretária dele na sala. Tentei deixar tudo exatamente como estava antes. Quando ele entrou, eu estava de pé junto à janela, a fingir que olhava para o jardim.
— Já arranjaste o que precisavas? — perguntou, pousando as chaves na mesa.
A voz dele soou normal. Demasiado normal.
— Sim… sim, obrigada. Consegui descarregar os documentos.
Ele aproximou-se e beijou-me na face, como fazia sempre.
— Boa. Vou fazer um café. Queres?
— Não, obrigada. Tenho de ir.
Fui para o quarto buscar a mala e o casaco. As pernas tremiam-me. Quando passei por ele na cozinha, evitei olhar para o rosto dele. Tive medo que ele visse alguma coisa nos meus olhos.
— Até logo — disse, já com a mão na porta.
— Até logo, amor.
Saí de casa e entrei no carro. Fiquei sentada durante quase cinco minutos sem pôr o motor a trabalhar. As mãos agarravam o volante com força.
Não conseguia pensar com clareza.
Só conseguia ver aquelas imagens. Só conseguia ouvir aquelas frases.
O Tiago. O meu Tiago. O homem com quem eu dormia todas as noites. O pai da minha filha.
Queria gritar. Queria chorar. Queria voltar para dentro de casa e atirar-lhe o computador à cara.
Em vez disso, liguei o carro e fui para o trabalho.
Durante todo o caminho, só conseguia repetir uma frase na cabeça, uma e outra vez:
*Quem é este homem com quem eu vivo?*

Não consegui trabalhar direito o resto do dia.
Fiquei sentada à secretária a olhar para o ecrã sem ver nada. As imagens voltavam constantemente: a mulher loira de joelhos, o homem na cadeira a masturbar-se, as frases de humilhação, os vídeos de mulheres a serem fodidas enquanto os maridos assistiam. Tentei afastá-las, mas voltavam sempre.
Quando saí do escritório, às cinco e meia, ainda sentia o estômago embrulhado. Dirigi até casa no piloto automático. Parei num semáforo e, durante uns segundos, pensei em não ir para casa. Pensei em ir para um hotel, ou para casa da Joana, ou simplesmente dar voltas de carro até não conseguir pensar.
Mas a Inês estava à minha espera. Então fui.
Quando entrei, ela estava na sala a fazer os trabalhos de casa. O Tiago estava na cozinha a preparar o jantar. Beijou-me na face como sempre fazia. Eu deixei. Não consegui corresponder.
— Está tudo bem? — perguntou ele, baixinho, enquanto a Inês não ouvia.
— Sim. Só estou cansada.
Comi o jantar quase em silêncio. A Inês contou que tinha tido um teste de matemática e que achava que se tinha saído bem. Eu sorri e fiz as perguntas certas, mas a minha cabeça estava noutro lado. O Tiago olhava para mim de vez em quando com uma expressão preocupada. Eu evitava os olhos dele.
Depois de deitar a Inês, fui para o quarto. Fiquei sentada na beira da cama durante muito tempo, só a olhar para o chão. O Tiago entrou uns minutos depois, já de pijama.
— Alice? — chamou, hesitante. — Aconteceu alguma coisa?
Respirei fundo e levantei-me. Fui até à porta do quarto e fechei-a com cuidado. Depois virei-me para ele.
— Hoje de manhã usei o teu computador — disse, com a voz surpreendentemente calma. — O meu estava avariado.
Ele ficou quieto. Não disse nada.
— Estava à procura de um documento antigo que me tinhas ajudado a fazer. Abri várias pastas. E encontrei uma chamada “Trabalho Pessoal – Não Apagar”.
Vi o sangue sair-lhe da cara. Literalmente. Ficou branco como a parede.
— Alice…
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